segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Na atual conjuntura uma Universidade Federal deve refletir bastante se aceita eventos de grupos nazistas, fascistas, separatistas e extremistas de direita, grupos com ideologias excludentes e contrárias aos valores democráticos, grupos com agendas políticas contrárias ao investimento e progresso da ciência, da cultura, da tecnologia, do desenvolvimento nacional e da cidadania inclusiva. Para qualquer evento público na Universidade, com livres debates, deve sempre haver um professor ou membro da comunidade universitária responsável, com nome, identidade e currículo Lattes público, apresentando e justificando de maneira transparente o evento, bem como suas finalidades para o mesmo público e seus pares. Desconfiem muito se nenhuma autoridade universitária assumir e se responsabilizar por evento extremista, que envergonhe profundamente a instituição, tipo evento com ativistas autoritários, raivosos e portadores de ódio político intolerante, ódios de extremistas de fora da universidade contra movimentos sociais críticos, contra jovens de minorias politicamente representativas na história da universidade e suas entidades, contra mulheres, contra LGBTS e afins, contra negros, contra índios e contra qualquer grupo socialmente vulnerável. Se o evento não tiver apreciação relevante e nem aparecer no Portal da Universidade é porque o caráter científico, acadêmico e comunitário da atividade é vexaminoso e altamente questionável. Mais uma vez precisamos do posicionamento da APUFPR, SINDITEST e DCE, ao lado da Reitoria e Conselhos.


RCO

sábado, 14 de outubro de 2017

SONETO CV


Não chame o meu amor de Idolatria
Nem de Ídolo realce a quem eu amo,
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo.
É hoje e sempre o meu amor galante,
Inalterável, em grande excelência;
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença.
'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo;
'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento;
E em tal mudança está tudo o que primo,
Em um, três temas, de amplo movimento.
'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora;
Num mesmo ser vivem juntos agora.

William Shakespeare

Soneto da separação



De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinícius de Moraes


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Zeitgeist: Os militares turcos e defesa do Estado laico


Líder militar Mustafa Atatürk fundou a Turquia moderna e introduziu reformas que diminuíram influência do islã e tornaram país uma democracia laica. Militares se veem como seus herdeiros.


Mustafa Kemal Atatürk, fundador da República da Turquia
A história da moderna República da Turquia começa com a derrota e o consequente fim do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial.

A partição do território do Império Otomano entre os aliados, em outubro de 1918, gerou grande insatisfação entre os turcos otomanos, que se consideravam desfavorecidos.

Essa insatisfação deu origem a um movimento revolucionário nacionalista cujo principal líder era um militar, Mustafa Kemal Atatürk. Em outubro de 1923, em seguida à guerra pela independência, o movimento resultou na proclamação da república.

O primeiro presidente dessa república foi Atatürk. Desde o início, ele implementou uma série de reformas para criar uma democracia moderna e secular, que aproximaram a Turquia do Ocidente. O próprio Atatürk se referia às suas reformas como "europeização" da Turquia.

Atatürk eliminou a sharia como base da legislação, aboliu o califado, proibiu o véu islâmico, adotou o calendário ocidental, introduziu novos códigos civil, penal e comercial, adotou o alfabeto latino no lugar do árabe e declarou o Estado laico, entre várias outras reformas.

Um destaque especial foi dado aos direitos das mulheres, que puderam votar e ser votadas a partir de 1934. A poligamia foi abolida, e homens e mulheres passaram a ter direitos iguais no divórcio e na guarda dos filhos. Também foi garantido o acesso das mulheres à educação, em todos os níveis.

Como Atatürk era um militar, os militares passaram a se ver como guardiães das reformas que resultaram na Turquia moderna. E como Atatürk impôs suas reformas com mão de ferro e é até hoje admirado pela maioria dos turcos, a opção do governo pela força tem grande aceitação dentro da sociedade.

Assim, o país viu quatro golpes militares desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1960, 1971, 1980 e 1997. Em todos eles, os militares invocaram o fundador da república e a defesa das reformas seculares contra as correntes islâmicas.

Esse domínio militar sofreu um duro revés em novembro de 2002, quando o partido islâmico conservador AKP venceu as eleições e conquistou o cargo de primeiro-ministro, que foi ocupado por um dos líderes dos islamistas, o ex-prefeito de Istambul Recep Tayyip Erdogan, atual presidente do país. Desde então, AKP e militares travam uma batalha pelo poder na Turquia, que tem como pano de fundo a tensão entre forças seculares e religiosas.

Com meio milhão de militares, as Forças Armadas turcas são as segundas maiores da Otan, atrás apenas dos Estados Unidos. Pesquisas mostram que a popularidade dos militares está caindo dentro da sociedade turca.

A coluna Zeitgeist oferece informações de fundo com o objetivo de contextualizar temas da atualidade, permitindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada das notícias que ele recebe no dia a dia.

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HAGIA SOPHIA NA DISPUTA DAS RELIGIÕES

Marco arquitetônico

No ano de 532, o imperador romano Justiniano 1º, que residia em Constantinopla, ordenou a construção de uma imponente igreja, "como não existe desde a época de Adão e nunca existirá novamente". Mais de 10 mil operários trabalharam nela. Dentro de apenas 15 anos, a estrutura externa era inaugurada. Durante um milênio a basílica foi o maior templo do cristianismo.



Autoria Alexandre Schossler


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1924: Fim do califado na Turquia


No dia 3 de março de 1924, encerravam-se os 600 anos de poder do Império Otomano. A Assembleia da Turquia dissolveu o califado e expulsou os representantes da dinastia.



                                                       Mustafa Kemal Atatürk

Kemal Atatürk

Em seu auge, durante a segunda metade do século 16, o Império Otomano se estendia por todo o Oriente Médio, a partir do atual Iraque, até a Hungria e o Norte da África. Seus regentes haviam assumido os títulos dos califas muçulmanos para ressaltar a supremacia no mundo islâmico. O sultão Suleiman 1º foi o último destes grandes soberanos.

O declínio começou no século 18, com a expulsão dos turcos da Hungria. Mais tarde, eles tiveram que se retirar também do sul da Rússia e, no século 19, seguiram-se partes dos Bálcãs e do Egito. Vários povos começaram a se rebelar, em busca de mais autonomia. Um exemplo foi a sangrenta revolução nos Bálcãs em 1908, que desencadeou o genocídio de 600 mil armênios durante a Primeira Guerra Mundial.
Derrotado na guerra, o aliado da Alemanha teve que assistir como italianos, britânicos, franceses, russos e gregos dividiram entre si pedaços do império em decadência. Alguns territórios foram anexados, outros viraram protetorados e outros, como a Armênia, conquistaram a independência. A extensão definitiva da Turquia foi fixado no Acordo de Lausanne, em 1923.

República e ocidentalização

O apetite dos Aliados pelo poder na Ásia Menor era tão grande, que nada teria restado à atual Turquia, se não fosse a resistência de Mustafá Kemal Atatürk, um general do Império Otomano com larga experiência em guerras. Diversos grupos nacionalistas o ajudaram a evitar a perda completa do território. Os gregos foram expulsos da Ásia Menor em 1922 e, em outubro de 1923, foi proclamada a república, com Ancara como capital.

O sultão Mehmed 6º, que sofria cada vez mais influência dos Aliados, foi pressionado a se asilar no exterior. Mustafá foi eleito presidente e introduziu as reformas que garantiram a ocidentalização da Turquia. Entre as principais, a concessão de direitos às mulheres, a adoção da escrita romana, do calendário gregoriano e do costume ocidental do sobrenome. Em 1926, aboliu-se também a poligamia.

Em 3 de março de 1924, dois anos após o fim do sultanato, a dissolução do califado e a expulsão dos representantes da dinastia pela Assembleia da Turquia, encerraram os 600 anos de poder do Império Otomano.

Autoria Peter Philipp (rw)

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1923: Ancara torna-se a capital da Turquia

No dia 13 de outubro de 1923, Kemal Atatürk, o fundador da moderna Turquia, declarou Ancara a capital do país.


Atatürk, o 'pai dos turcos'

O general Mustafa Kemal, fundador da Turquia moderna, recebeu o nome de honra "Atatürk", que significa "pai dos turcos". Atatürk fez parte de um grupo de jovens turcos que conseguiu pôr fim ao regime do sultanato no início do século 20. Após a derrota na Primeira Guerra Mundial, o Império Otomano encontrava-se à beira do colapso. O general Kemal assumiu a liderança da resistência nacional e ergueu uma nova nação das ruínas do antigo império.

Jovens exilados contra o sultanato

Sua ditadura reformista baseava-se em princípios que, transformados na ideologia que marcou o novo Estado, passaram a ser conhecidos como “kemalismo”. Kemal nasceu e cresceu em Salônica, na Grécia, onde frequentou a Academia Militar e juntou-se, já no ano de 1907, na Macedônia, ao Comitê para a Unidade e Progresso, que reunia turcos avessos ao Império Otomano.

Os jovens exilados começaram a se organizar em 1896 na clandestinidade, principalmente através do Comitê fundado alguns anos antes. O objetivo dos envolvidos, especialmente dos oficiais, e entre eles de Atatürk, era a implantação de uma Constituição na Turquia.

Naquela altura, o então desconfiado sultão e califa Abdülhamit perdia suas últimas chances de manter de pé seu regime de apadrinhamento. Se Istambul ainda governava, era em Ancara que se acumulavam as forças liberais e unionistas. Os donos do poder em Istambul reagiam sem sucesso. Uma rebelião organizada contra os jovens turcos reformistas não vingou, e o sultão Abdülhamit acabou sendo afastado. Seu irmão, que recebeu o título de sultão Mehmet, o Quinto, não teve mais nenhum poder de influência no país.

Mas quem eram esses jovens turcos, que da distante Ancara conseguiram minar lenta, mas seguramente, o tradicional Império Otomano, com know-how militar e ideias ocidentais? O historiador e cientista político Feroz Ahmad caracteriza o movimento da seguinte forma: "Dentro do movimento Turquia Jovem reuniram-se todas as forças e grupos que queriam derrubar o regime tradicional do sultanato. De forma simplificada, pode-se dividir o movimento em duas correntes distintas: os liberais e os unionistas".

"Os liberais pertenciam de maneira geral a uma classe social mais alta dentro do Império Otomano. Os membros dessa facção eram, sem exceções, muito bem-educados, abertos ao mundo e defensores de um sistema ocidentalizado, além de conhecerem línguas e culturas europeias, na maioria das vezes a francesa. Eles defendiam a implantação de uma monarquia constitucional, que seria conduzida pelos funcionários do governo, também oriundos da mesma classe social que eles. Da Inglaterra, que eles consideravam o berço dos parlamentos, os liberais esperavam receber ajuda para o regime em forma de empréstimos financeiros e apoio técnico na implantação das moderadas reformas sociais e econômicas.”

Fim do Império Otomano

Após várias operações militares bem-sucedidas, Atatürk assumiu a posição de líder da resistência nacional e tornou-se, a partir de 1920, presidente do Parlamento de Oposição criado em Ancara. Entre 1919 e 1922, derrotou nas guerras de libertação armênios, gregos, italianos, franceses e ingleses, estabelecendo então seu monopólio de poder com a ajuda do Partido Popular Republicano. O Império Otomano desmoronou-se de vez e Atatürk passou a deter em suas mãos todo o poder sobre o país.

Uma de suas resoluções mais importantes foi tomada no dia 13 de outubro de 1923: declarar Ancara nova capital da Turquia. Quase duas semanas mais tarde, foi proclamada a República – com Kemal Atatürk na função de presidente – e no ano seguinte, o califado foi definitivamente abolido. A isso seguiram-se medidas como a regulamentação do sistema de ensino pelo Estado, a substituição do direito islâmico das leis sagradas Charia por uma legislação de viés ocidental, a submissão de instituições religiosas ao controle do Estado, a adoção do alfabeto romano em detrimento do árabe e a consolidação da República da Turquia como um Estado secular.


Autoria Doris Bulau (sv)


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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

DIREITA BRASILEIRA


É aquela que vota em um estuprador de galinhas que bate continência para a bandeira dos EUA em nome do resgate da moral e do nacionalismo.

Gustavo Castañon

PÁTRIA MINHA


A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!
Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!
Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.
Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.
Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes."



NEM SUPREMO NEM SENADO, DIVISÃO TOTAL E INDECIFRÁVEL


Helio Fernandes

Depois de mais de 12 horas, uma das sessões mais longas dos últimos tempos, nada resolvido, a situação indica cada vez mais confusão. O Supremo, completamente dividido, devolve o processo para o Senado, que se aproveitará disso.
Temos que esperar o dia 13, com os Poderes completamente acéfalos. E no caminho de serem ultrapassados e ignorados.
E o Supremo, totalmente humilhado, constrangido, envergonhado, não sabia definir.Quando o resultado estava 4 a 4, 20 minutos de discussão acalorada, para saber o que estavam votando.
Para Suas Excelências ,4 a 4 não é empate, precisava interpretação. E foram interpretando, miseravelmente negando o passado.Esqueceram de Delcidio Amaral, Eduardo Cunha, como disse varias, não julgavam Aecio, consolavam e confortavam os senadores, apavorados e acumulados de processos no Supremo.
O ponto final do desequilibrio, foi o voto de desempate da presidente Carmen Lucia. Totalmente confusa, ela se atrapalhava toda, não sabia de nada ou melhor, sabia que precisava desempatar a favor da corrupção,mas não encontrava o caminho.
Foi socorrida caridosamente pelo decano Celso de Mello, que votara o bom combate, e lhe ensinava o caminho contrario.
O Supremo volta aos tempos tenebrosos do Estado Novo,quando serviu á ditadura, de 1937 a 1945. Agora servirá á corrupção. Só não sabem por quanto tempo.O Supremo se tornou secundário e dispensável, por opção e decisão dele mesmo.


Crise política

A única forma de superação de crises políticas é a democracia e o voto. Qualquer brasileiro com mais de cinquenta anos lembra do desastre político total que foi a ditadura militar, com o fracasso dos Generais Figueiredo e Newton Cruz. A crise social, econômica, política, moral e a corrupção, a impopularidade da ARENA e do trânsfuga PDS, o desemprego, fome, seca e saques no Nordeste, pivetes e favelas nas cidades, inflação e dívida externa, os terroristas do RIOCENTRO não deixaram nenhuma saudade. Sou filho de militar, temos dezenas de primos que foram oficiais superiores, generais e lembro bem que comentavam que militares foram recomendados a não andarem fardados no centro do Rio de Janeiro durante as Diretas Já, uma vergonha. Hoje essa imensa vergonha é do golpista Temer, do PMDB, PSDB, DEM, PPS e todos esses políticos rasteiros e corruptos. Querem governar o Brasil devem ganhar eleições e devem aparecer bem nas pesquisas de opinião. A rejeição de todas essas lideranças golpistas vem aumentando muito e rapidamente. Bolsonaro, Doria, Alckmin, Marina, Moro apresentam imensas rejeições em crescimento pela participação no golpe contra democracia. Somente a democracia e as eleições podem garantir credibilidade, legitimidade e uma nova hegemonia política. Fora isso só vai aumentar e piorar a já grande crise política.

RCO
Gente, existem tantos verbos para se usar, para além do to be or not to be. A voz ativa me soa tão significativa, pois ilumina o sujeito como agente e não paciente. Será que podemos diminuir a vozpassividade dos nossos textos?
Quero, sim, melhores textos.
Desejo, sim, aperfeiçoar minha própria escrita!
Põe a peruca para funcionar...
E sem a vulgaridade de dizer que se preocupar se os tempos e sujeitos verbais concordam ao longo do texto seria frivolidade. Pelamor ... fácil demais dizer que não vai usar matemática porque estuda humanas e depois não consegue nem fazer uma regra de três para achar percentagem...
Ps: não é o caso de facebook, to falando de estudos, documentos, pareceres... to falando para melhorar a comunicação não para embolar tudo... to falando de pessoas como eu que tiveram e tem acesso a escritas variadas
Ps2: to sendo julgadora, sim é sempre possível melhorar


Louise Ronconi de Nazareno

HA 40 ANOS, FROTA TENTOU DERRUBAR O "PRESIDENTE" GEISEL


Helio Fernandes

Mais um golpe dentro do golpe, nada surpreendente. Geisel cuidava da sua sucessão, e o ministro do Exercito, Silvio Frota, era candidatissimo. Mas o "presidente" já decidira: seu sucessor seria o general Figueiredo, Chefe do SNI.
Conhecendo os objetivos de Frota, montaram vigilância cerrada em cima dele. Estava fora da capital, souberam que chegaria a Brasília no dia 12 de outubro, com tudo preparado para tomar o poder. Com os serviços de Inteligência funcionando 24 horas por dia, souberam que o golpe seria no próprio dia 5, quando Frota chegasse á capital. Montaram então o contra - golpe.
Mandaram para o aeroporto, o dobro de soldados e apenas coronéis. Geisel e Figueiredo mandaram 5 generais de 4 Estrelas. E foram para a pista, esperar o avião. Assim que o Ministro ia descendo a escada, o general Hugo Betlem segurou seu braço, disse: "General, o senhor está preso, por favor, não tente resistir o aeroporto está cercado".
Frota compreendeu a situação, logo parou um carro, Frota e Betlem entraram atrás, na frente outro general de 4 Estrelas. Foram para o Planalto, Frota já estava demitido, o substituto era o próprio Betlem. Agora a parte mais difícil do ponto de vista pessoal e sentimental.
Figueiredo era 3 Estrelas, para "presidente", precisava ser promovido. Só havia uma vaga de 4 Estrelas.O numero 1 era o Chefe da Casa Militar do próprio Geisel, Figueiredo era o numero 2. Tradição no Exercito: o oficial que não é promovido ("caroneado") na sua vez, têm que passar para a reserva.
Mais tarde Geisel diria: "Sofri muito, mas fiz o que tinha que fazer". Figueiredo foi promovido, feito "presidente".
PS- 40 anos depois estamos numa encruzilhada ou expectativa: decidirão novamente por nós?
PS2- Algum outro general de 4 Estrelas traçará nosso destino, escreverá outro roteiro sem que saibamos como começa ou como termina?

PS3 -INDEC IFRAVEL

sábado, 7 de outubro de 2017

EMBOSCADA


¡Enseña, enseña, enséñame tu piel!
¡Deja, deja, déjame pasar mis dedos por tu piel!
Regálame, una, tan sólo una sonrisa
Fíjate, por única vez en mi, yo te veré ángel
Tomaré una instantánea para lo infinito
Voy quedando atrás a propósito
Me relego, que sean mis ojos las ventanas
Donde entre a borbollones tus formas exquisitas
Brota, has que surja de tu corazón un indicio
Algo que me filtre una leve esperanza
El azar quiso, que la calle tuya fuera la mía
Y el designio fortuito rozarnos las pieles
Ha sido el andén mi favorita pasarela
Tu siendo la modelo preferida de maravilla
Estoy agazapado como un guepardo
He preparado la emboscada definitiva
Debe llegar el zarpazo para conquistarte
¿Tendré éxito o no?
¡Ya veremos!
               

 José Abraham Guevara Chamorro          

Bilhete



Não te sei dizer mais.
Depois de tantos versos,
Que te baste o silêncio
Dum poeta ardente
Que sempre, naturalmente,
Foi além das palavras
Do amor, amando.

Que, em cada beijo,
Selava os lábios que o nomeavam.
Que aprendeu a sofrer,
Que tudo acontecia
No acontecer.
Que, até nas horas de evasão, sabia
Que a verdadeira vida vive-se a viver.

 De Miguel Torga


terça-feira, 3 de outubro de 2017

1866: Paz entre Áustria e Itália


No dia 3 de outubro de 1866, foi selada a Paz de Viena, entre a Itália e a Áustria, marcando a passagem do Vêneto à Itália.

Otto von Bismarck se aliou à Itália

O tratado de paz entre a Áustria e a Itália, assinado no dia 3 de outubro de 1866 em Viena, foi um passo pequeno mas decisivo para a reorganização política da Europa central no século 19. O ponto mais importante do tratado prescrevia que a Áustria desistisse da sua influência sobre o norte italiano, e entregasse a região do Vêneto à Itália.

Motivos da inimizade

O motivo para essa guerra remontava a fatos ocorridos na capital austríaca, no ano de 1815. No chamado Congresso de Viena, fora decidida a reestruturação política da Europa, que acabara de se libertar da ocupação pelas tropas francesas comandadas por Napoleão Bonaparte.

Um resultado do Congresso de Viena foi a formação da Liga Alemã: ela não era nenhuma pátria alemã unida, nem um Estado nacional, mas, pelo menos, a associação de um determinado número de Estados autônomos, com duas potências de destaque: a Prússia e a Áustria.

Porém, esta constelação estava fadada ao fracasso. O chanceler prussiano Otto von Bismarck escreveu a um amigo, em 1853: "Não há lugar para as duas, a Prússia e a Áustria, em virtude das ambições manifestadas pela Áustria; ou seja, não poderemos nos entender de forma duradoura, uma das duas terá de recuar. Até lá, teremos de ser adversários. Considero isto um fato".

Liga alemã, a ferro e sangue

Bismarck não perdeu nenhuma oportunidade de irritar e provocar a Áustria. E não apenas diplomática e politicamente. Na solução da "questão alemã", ele lançaria mão também de recursos militares. Data dessa época uma declaração do chanceler prussiano que mais tarde ficaria célebre, sendo frequentemente citada como advertência contra qualquer eventual política expansionista prussiana ou alemã:

"Temos a tendência de vestir uma armadura muito grande para o nosso corpo magro. A Alemanha não venera o liberalismo da Prússia, mas sim o seu poder. As grandes questões da nossa época não são decididas com conversação e votação majoritária, mas sim a ferro e sangue!"

Na luta pela unificação da Alemanha, só havia duas opções: a solução do "pangermanismo", com a Áustria como potência líder e a Prússia como parceira inferior, ou a chamada "pequena solução". Esta previa a união dos Estados do norte alemão, sem a Áustria – embora ela também se sentisse, na verdade, alemã.

A "pequena solução" teria naturalmente a Prússia como potência líder. Do ponto de vista de Bismarck, esta era a única constelação aceitável. E para lograr militarmente tal objetivo, a Prússia buscou um aliado no sul da Europa: a Itália.

Ataque por duas frentes

Numa guerra contra a Prússia e a Itália, a Áustria teria de combater em duas frentes ao mesmo tempo. A Itália aceitou as propostas prussianas e firmou um pacto de solidariedade com a Prússia, do qual constava, entre outros pontos: "Se a Prússia chegar à situação de pegar em armas, a Itália declarará a guerra contra a Áustria".

Além disso: "Não poderá ser recusada a aceitação de um armistício, se a Áustria concordar em ceder o reino lombardo-veneziano à Itália e partes do território austríaco à Prússia ou fizer concessões na questão alemã".

Em 1866, a Prússia e a Itália declararam guerra à Áustria. Os prussianos, militarmente mais fortes, venceram os austríacos sem grande esforço. A guerra estava praticamente decidida, depois da batalha de Königgratz. O caminho para Viena estava aberto.

Mas Bismarck foi contrário a novas conquistas. O que provocou indagações do rei da Prússia: "A Áustria não terá de pagar reparações razoáveis de guerra? O inimigo principal não terá de ceder territórios? O vencedor vai se deter diante dos portões de Viena, sem invadir a capital?" A resposta de Bismarck: "A Áustria não pode ser humilhada. É preciso ganhar sua amizade para o futuro; do contrário, ela se tornará aliada da França. Não devemos julgar a Áustria, mas sim, fazer a política alemã e preparar-nos para estabelecer a união alemã, sob o rei da Prússia".
Paz do futuro eixo

Quando Bismarck ameaçou renunciar, o rei prussiano aceitou seu ponto de vista e iniciou negociações de paz com a Áustria. No Acordo de Praga, a Prússia renunciou a grandes conquistas territoriais, uma vez que a Áustria concordou em se retirar da Liga Alemã. Mas Viena pretendia estender sua influência ao Leste Europeu e aos Bálcãs, a fim de se impor perante a Liga Alemã, dominada pela Prússia.

Para obter liberdade de ação nos seus planos, a Áustria concordou rapidamente em assinar um tratado de paz também com a Itália. Através do acordo assinado em Viena no dia 3 de outubro de 1866, a Áustria cedeu a região do Vêneto à Itália.

O tratado de paz de Viena encerrou a chamada Guerra Alemã, e suas consequências se estenderam até no século seguinte. Os três países envolvidos nessa guerra – que estavam começando a constituir-se como Estados nacionais ou, no caso da Áustria, que passava por uma reorientação política – foram justamente aqueles que, como aliados, deram início à Primeira Guerra Mundial em 1914 e terminaram derrotados.

Autoria Dirk Kaufmann (am)

Palavras-chave reordenação europeia, guerra austro-prussiana, 1866, história Itàlia, história Áustria, 03/10/1866


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domingo, 1 de outubro de 2017

EL LABERINTO


Zeus no podría desatar las redes
de piedra que me cercan. He olvidado
los hombres que antes fui; sigo el odiado
camino de monótonas paredes
que és mi destino.

Rectas galerías
que se curvan en círculos secretos
al cabo de los años. Parapetos
que ha agrietado la usura de los días.

En el pálido polvo he descifrado
rastros que temo. El aire me ha traído
en las cóncavas tardes un bramido
o el eco de un bramido desolado.

Sé que en la sombra hay Otro, cuya suerte
es fatigar las largas soledades
que tejen y destejen este Hades
y ansiar mi sangre y devorar mi muerte.

Nos buscamos los dos. Ojalá fuera
éste el último día de la espera.

JORGE LUIS BORGES 

CASA ARRUMADA

  
A vida é muito mais do que isso...
"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência
egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos
também a felicidade."

Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa
entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um
cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os
móveis, afofando as almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras
e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições
fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos...
Netos, pros vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.


Carlos Drummond de Andrade
Osip Mandelshtam

Roubaste-me os mares, da corrida, do voo.
Mas me deu o fulcro da sua terra violenta.
Então, o que é que conseguiu? Doce ironia do destino:
Também tentou tirar a língua, mas falhou.

(1935 de maio de 1935, a partir do caderno de voronezh, escrito no exílio. )

Traduzido do russo por Philip Nikolayev

O que as melhores escolas públicas têm em comum


As escolas públicas com melhor desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) são as federais e as militares. Também entram neste grupo algumas escolas técnicas estaduais, como a ETESP em São Paulo. O que essas escolas têm em comum é pouco explorado no atual debate sobre o ensino médio (até mesmo porque aqueles que têm mais propriedade sobre o assunto, os professores do ensino básico, são excluídos do debate). São três coisas que essas escolas possuem em comum: elas são autarquias, seus professores possuem autonomia pedagógica e a remuneração destes profissionais são justas. Vou tentar mostrar aqui que a ausência destas três coisas é o maior problema do ensino básico brasileiro.
Ano passado, uma das salas em que eu lecionava tinha mais de 40 alunos. É comum uma sala com mais de 40 alunos nas escolas públicas estaduais. Mas essa especificamente era frequentada por uma quantidade enorme de alunos indisciplinados. Considerando também o enorme degaste que era trabalhar nesta turma (para alunos e professores), o resultado foi uma aprendizagem ruim. Era consenso entre professores, equipe pedagógica, pais e os próprios alunos que o melhor era dividir a sala. Após uma reunião com os pais, fizemos um pedido à Secretaria de Educação do Estado (PR) para dividir a turma. A resposta foi negativa. Entraves burocráticos como esse na administração de uma escola não se reduz à questões pedagógicas. Os entraves se estendem à logística, à manutenção física e ao departamento pessoal. Já o grupo das melhores, são autarquias. Elas possuem autonomia administrativa, e estão livres de vários entraves burocráticos que prejudicam a escola. Até autonomia para fazer prova para seleção de alunos elas possuem. Em qualquer boa instituição pública no mundo, o grau de autonomia administrativa é muito maior que o da maioria das escolas estaduais no Brasil. Isso por uma razão simples: quem melhor sabe o que deve ser feito é quem está no dia a dia da administração. Mesmo que muitas vezes toma-se medidas equivocadas, as chances de quem está de fora errar é muito maior. O resultado está aí para todos verem. A maior parte das escolas públicas do Brasil não são autarquias e são ruins.
A autonomia pedagógica dos professores também é bem maior no grupo das melhores. Até mesmo nos colégios militares, diferente do que se pensa, a autoridade do professor (autor da aula) é respeitada. Nestas escolas, o respeito à capacidade profissional do professor e ao fato dos professores serem os autores da aula oferece muito mais condições de ensino. É o professor que mais tem contato com o aluno no tratamento do conteúdo apresentado. Assim, é ele que tem mais propriedade para apontar as dificuldades de aprendizado dos alunos e propor as medidas adequadas para garantir o aprendizado do conteúdo. Mas, atualmente, é quem está fora da sala de aula que mais dita as ações a serem tomadas. Na maioria das escolas estaduais, pais, pedagogos e direção pressionam muito em relação as ações a serem tomadas. Nos pressionam sobre a maneira como as provas devem ser feitas, sobre a quantidade de avaliações a serem feitas (há escolas que exigem até seis avaliações bimestrais) e sobre o que deve ser feito com aluno indisciplinado e agressor. Neste último caso, mais precisamente, nos pressionam a não fazer nada. Pois tomar medidas disciplinares dá trabalho. É muito importante para qualquer profissional a orientação de colegas. Mas não é isso que acontece. O que acontece é pressão mesmo. Pressão de quem não tem a capacidade devida, de quem quer evitar trabalho e de quem não vê outra coisa além de sua ideologia pedagógica - vou dar nome aos bois: a ideologia que o professor é um opressor.
Quer queira ou não, uma remuneração justa também é uma característica das boas escolas. O salário base em início de carreira no grupo das melhores, para 40h de trabalho, fica em torno de 3.400 à 5.000 reais. Nas escolas públicas estaduais, a média é de aproximadamente 2.700 reais. Essa média chega a este valor por que alguns Estados, como MT, MS e DF, pagam por volta de 3.800. Mas a maioria dos estados pagam abaixo da média. No grupo das melhores, além disso, há o reconhecimento financeiro devido de mestrado e de doutorado e também há vale-alimentação. No caso das escolas estaduais, em alguns Estados não há pagamento de vale-alimentação, como também não há reconhecimento financeiro de mestrado e de doutorado, como é o caso do Paraná, onde leciono (aqui há um mestrado reconhecido que é oferecido pelo Estado. Mas é preciso esperar uma década em média para conseguir vaga. Se fez mestrado em outro lugar, na UFPR, por exemplo, não é reconhecido). Para além da obviedade de que uma remuneração justa é importante para qualquer trabalho, chamo a atenção para o nível de profissional que ela atrai. Salário bons atraem melhores profissionais e salários ruins espantam os melhores profissionais. Há mais duas questões relacionadas ao salário que são importantes. Primeiro, o grupo das melhores concedem mais horas-atividades (tempo para preparar aulas, fazer e corrigir avaliações e etc.) que a maioria das escolas estaduais. Há estados que nem cumprem o mínimo exigido por lei, que é 33% de hora-atividade. O que significa que boa parte do trabalho é de graça. Segundo, a garantia de 40h de trabalho nas escolas estaduais é parcial. A maioria dos concursos públicos são para 20h. Isso provoca a cada ano um corre corre para conseguir aulas, e alcançar as 40h, sendo comum não conseguir.
Vale lembrar mais uma vez, que tais pontos são ignorados nas discussões e nas medidas políticas sobre o ensino básico, inclusive na atual reforma do ensino médio proposta pelo Governo Federal. No horizonte, até podem ter em contas essas ideias, mas com o interesse repugnante de entregar, depois de precarizar de vez, para as ONGs que atualmente ditam o ensino básico brasileiro e esta reforma do ensino médio (Instituto Ayrton Senna, Fundação Lemann, Fundação Itaú Social e Movimento Todos pela Educação).

Thiago Melo



Crítica Autônoma

Por que algumas pessoas insistem que uma ideia filosófica depende muito da biografia do filósofo?


Muitos professores de filosofia insistem que o ensino e a análise de ideias filosóficas não podem ser feitos sem levar em conta a vida pessoal e profissional dos filósofos que as conceberam. No entanto, a justificação desta insistência não apresentam. Esta falta de justificativa é a primeira pista para entender a posição que tomam.
Quando não apresentamos justificativas de nossas posições, as pessoas interessadas no assunto vão procurar pontos que possam justificar as posições apresentadas. Fazemos uma retrospectiva da memória que temos da pessoa. Sua história pessoal, as relações que tivemos com ela, se for o caso, o tipo de trabalho que faz etc. Aí, se, por exemplo, a pessoa defende a liberação do uso de drogas, levamos em conta se ele é um usuário, se ela em algum outro momento conversou sobre o assunto, se ela é de esquerda etc. Enfim, procuramos razões para ela defender a ideia que defende na sua biografia. É isso que um historiador da filosofia faz quando filósofos não apresentam razões ou boas razões para as ideias que defende: ele vai procurar na biografia do filósofo. Não é por acaso, portanto, que os professores que mais insistem na importância da biografia de um filósofo são aqueles que estudam ideias filosóficas que não são bem justificadas.
Seguindo esta linha, constatamos que as pessoas que sustentam que o ensino e a análise de ideias filosóficas não podem ser feitos sem levar em conta a vida pessoal e profissional dos filósofos dão como já dado definitivamente que as ideias filosóficas são subjetivas. Isso significa que as ideias filosóficas dependem muito do sujeito que as concebem. Se alguém defende que a definição de conhecimento é X, ela defende isso devido, fortemente ou exclusivamente, a seus interesses pessoais. Assim, as ideias filosóficas, antes de ser sobre o mundo, são sobre as pessoas que as concebem. Por exemplo, Platão defendeu que a definição de conhecimento é X porque é desejo dele que a definição seja essa, não porque ela de fato é essa. Nessa situação, faz todo sentido considerar a biografia de um filósofo como indispensável para entender suas ideias.
Já com relação às ideias de outras áreas de conhecimento, pensam que são objetivas ou possuem graus de objetividade que as filosóficas não possuem. Por isso, não veem dificuldades em ensinar e analisar uma ideia da física ou da matemática independente da biografia do autor.
O problema é que não é definitiva ainda a posição de que as ideias filosóficas são subjetivas e as ideias das ciências naturais e da matemática são objetivas. Este é um problema filosófico em aberto. Muitos filósofos, inclusive eu, defendem que as ideias filosóficas são mais objetivas. Outros são céticos, ou seja, não tomam posição sobre o assunto. Enfim, a resposta para este problema ainda está sendo investigada. E não há uma resposta definitiva ainda.
No mínimo, portanto, as razões que um subjetivista filosófico tem para considerar a biografia de um filósofo são as mesmas que um objetivista ou um cético tem para não considerar. Caso o subjetivista ache que ele tem razões melhores, é preciso apresentar. Apenas expressar uma posição é expor uma mera opinião. E acho que há consenso de que o ensino de filosofia não é o ensino de meras opiniões. Pois seria a disseminação de preconceitos, de ideias sem a devida avaliação crítica.
Thiago Melo

Crítica Autônoma


Por que argumentos circulares são falaciosos?


Uma das maiores dificuldades que enfrentei em sala de aula foi a de convencer os alunos que a falácia da circularidade em argumentos é mesmo uma falácia. Por mais exemplos que você use para mostrar que tais raciocínios não funcionam, sempre ainda fica a dúvida de saber onde está o erro. Os alunos questionam: “E daí? Ainda sim é uma justificativa”. Isso acontece porque nós professores pressupomos que os alunos conseguem reconhecer diretamente que a circularidade argumentativa é um erro - por isso, nos contentamos com exemplos. Mas nem nós professores conseguimos reconhecer diretamente. Para reconhecer a circularidade argumentativa, precisamos dos conceitos de cogência e de justificação última.
A falácia da circularidade acontece quando procuramos justificar uma ideia com outra de mesma força cognitiva. Por exemplo, a proposição “Todos os acontecimentos naturais são regulares” possui a mesma força cognitiva que a proposição “Observamos que os acontecimentos naturais são regulares. Veja a formulação de um argumento envolvendo estas ideias:
 Observamos que os acontecimentos naturais são regulares.
 Logo, todos acontecimentos naturais são regulares.
O que justifica a ideia “Os acontecimentos naturais são regulares” não pode ser a ideia “Observamos que os acontecimentos naturais são regulares”. Isso decorre do fato de que a observação que os acontecimentos naturais são regulares não garante que os acontecimentos são regulares. Pode acontecer de nossa observação ser falha. Podemos falhar, por exemplo, em não constatar que a regularidade vale para alguns acontecimentos naturais e não vale para outros. Nesse caso, não se segue que todos os acontecimentos naturais são regulares. Só alguns são regulares. Aí, não podemos nos convencer da verdade da ideia que usamos para justificar, isto é, da verdade da premissa. Tal fato envolve os dois conceitos já mencionados: cogência e justificação última.
Em raciocínios cogentes, pretendemos justificar a conclusão com base nas premissas. Isso significa que as premissas devem ser mais confiáveis ou mais fortes do que a conclusão, já que é a partir das premissas que procuro garantir a verdade da conclusão. Isso acontecendo, o argumento é cogente. Se a premissa não for mais confiável do que a conclusão, não conseguimos garantir por meio do argumento a verdade da conclusão. No raciocínio formulado acima, a ideia expressa na premissa possui a mesma força cognitiva da ideia expressa na conclusão. Logo, não consegue-se garantir a verdade da conclusão através da premissa. As duas ideias precisam igualmente de uma justificação para acreditar na verdade delas.
No fim das contas, a circularidade é uma falácia porque a premissa não é uma justificativa última, ainda permanece a necessidade de mais uma justificação. No exemplo que estou usando, ainda permanece a dúvida de saber o que justifica a ideia de que os acontecimentos naturais são regulares. Isso quer dizer que a premissa nem sequer cumpre sua função de justificar* a conclusão. Portanto, o argumento é falacioso. Parece haver uma justificativa* para a conclusão, mas não há.
*Comentando sobre este texto no Facebook, Desidério Murcho me lembrou de um ponto muito importante para este assunto. É o da distinção entre justificação e justificação adequada. Como disse ele, “Uma justificação má é ainda uma justificação”. No entanto, não é uma justificação adequada. Os argumentos circulares possuem justificação mas não justificação adequada. Então, aproveito para corrigir o final do texto: isso quer dizer que a premissa nem sequer cumpre a função de justificar adequadamente a conclusão. Portanto, o argumento é falacioso. Parece haver uma justificativa adequada para a conclusão, mas não há.

Thiago Melo

Crítica Autônoma



A misoginia, as minorias e o desrespeito


O número de pessoas que vejo indignadas com o desrespeito às mulheres, aos negros e as demais chamadas minorias vem crescendo. Isso poderia ser uma grande notícia. Mas a quantidade destas mesmas pessoas que também desrespeitam está aumentando. Percebo através de jornais, redes sociais e meu convívio social. Vejo pessoas indignadas com o machismo e elas próprias não respeitam o professor, o colega de trabalho, o colega de sala, o que está em posição social diferente, aquele que pensa diferente etc. Ao mesmo tempo, o número de pessoas que reafirmam seus preconceitos também aumentam. O número de pessoas que reafirmam o machismo, por exemplo, está aumentando.
A explicação para isso está no respeito seletivo. Não dá para escolher as pessoas que você quer respeitar. Muito menos, se você escolhe não respeitar alguém simplesmente por essa pessoa estar fazendo seu trabalho, como é o caso de desrespeito a professores. Isso porque quando o respeito ao próximo vira algo arbitrário, o grupo maior vai ganhar. Se existe mais machistas que feministas, os machistas vão ganhar. E não se pode depois alegar injustiça, pois o respeito foi consensualmente arbitrário. Ambos os lados aceitaram respeitar quem eles acham que deve. Aí ninguém pode determinar quem deve ser respeitado, a não ser o grupo maior ou mais forte.
Você esperneando ou não, o mundo nem sempre segue as nossas normas. Muito menos, se não conseguimos convencer a maioria. E escolhendo quem vamos respeitar, não conseguiremos. Não abra mão de respeitar o próximo. Esse caminho é mais seguro para o respeito a todos os tipos de pessoas.


Thiago Melo

Crítica Autônoma

Cortella e Karnal sobre ética



Circula há algum tempo na internet um vídeo em que Mário Sérgio Cortella fala sobre ética, e intitulam o vídeo como sendo uma definição de ética. O que ele diz é muito mais uma posição ética do que uma definição de ética. Ética (ou filosofia moral) é a investigação sobre as normas para que uma ação seja correta. Quando Cortella diz que ética é “um conjunto de princípios e valores sobre o que eu devo, posso e quero” ele já está dando uma reposta ao problema de saber o que é certo fazer. Pois ele admite que há princípios (existe filósofos que discordam) e admite que é o equilíbrio entre as normas, a liberdade e a vontade. Isso vai além da mera definição da área de conhecimento.
Recentemente, Leandro Karnal disse que ética é respeitar a todos, não só quem tem poder. Isso também já é uma resposta ao problema. Há teorias éticas que não aceitam isso.
O trabalho filosófico em ética consiste também em fazer o que Cortella e Karnal estão tentando fazer. Mas é importante ter essas considerações que fiz em mente porque a ética é uma área em aberto, não tendo ainda uma resposta definitiva sobre seu problema principal: o que é uma ação correta?


Thiago Melo

Crítica Autônoma
"Os romances retratam o indivíduo na sociedade, seja por meio de Balzac ou Dostoiévski, e transmitem conhecimentos sobre sentimentos, paixões e contradições humanas. A poesia é também importante, nos ajuda a reconhecer e a viver a qualidade poética da vida. As grandes obras de arte, como a música de Beethoven, desenvolvem em nós um sentimento vital, que é a emoção estética, que nos possibilita reconhecer a beleza, a bondade e a harmonia. Literatura e artes não podem ser tratadas no currículo escolar como conhecimento secundário."
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- Edgar Morin


A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA AO MERCADO


Comemorar a queda do desemprego porque a ocupação informal aumentou seria semelhante a interpretar como um fato positivo a diminuição da fome no mundo se ela decorresse do aumento do número de mortes dos famintos. É dizer que a morte de miseráveis aumenta a prosperidade no mundo porque diminui o número de miseráveis. Ora, a taxa de desemprego diminui quando as pessoas vão para informalidade simplesmente porque elas deixam de fazer parte da estatística dos desempregados. São pessoas que desistiram de procurar emprego e estão lutando pela sobrevivência no mercado informal. Alardear isso positivamente, como estão fazendo os analistas econômicos da grande imprensa, é servir a dois mestres ao mesmo tempo: a falsidade e a perversidade.

Ulysses Ferraz


O ABC DO NEOLIBERALISMO


Neoliberalismo é quando os ricos transferem livremente suas riquezas para onde se pagam menos impostos, aplicam seus recursos onde os juros são mais elevados e deslocam seus empreendimentos para onde haja o mínimo de direitos trabalhistas e sociais. E vivem em qualquer lugar do mundo que assim o desejarem, cercados de muros, bens luxuosos e aparatos de segurança privada. São os habitantes das muralhas maravilhosas.
Enquanto isso, o resto da população trabalha para subsistir, sobreviver e consumir as sobras do mundo afluente. Endividam-se para ter o mínimo de conforto material e vivem onde é possível viver, cercados de insegurança pública. Quando pacíficos, os excluídos são abandonados. Quando violentos, são encarcerados. Um Estado mínimo garantido por presídios de segurança máxima. Austeridades sociais em meio a prodigalidades armamentistas.
Os neoliberais e seus aliados conspiram incansavelmente pelo desmantelamento das redes de proteção social, amparados por suas tropas de elite espalhadas pelas casas legislativas. Suas indústrias bélicas são amplamente representadas em seus interesses nos parlamentos e legalmente blindadas pelos poderes judiciários. Os bancos de investimentos são suas fortalezas mais sólidas. Jamais se acanham em se utilizar largamente das instituições democráticas em benefício próprio.
E para disseminar suas ideologias, os poderosos do capital e seus representantes corporativos cercam-se de acadêmicos vencedores do prêmio Nobel, de políticos pretensamente defensores da social-democracia e de porta-vozes midiáticos dos principais meios de comunicação. Mediante o mágico efeito da dominação simbólica, o neoliberalismo faz com que dominantes e dominados lutem por um mesmo ideal. É a globalização da ideologia. Uma distopia real. Aqui e agora. Essa é a verdadeira contrarrevolução do final século XX, cujos efeitos ainda reverberam incólumes em pleno século XXI.


Ulysses Ferraz

Sobre a delação e a recusa


​​​Por Pedro Tierra*

Pertenço a uma geração que viu não poucos companheiros de luta voltarem das sessões de interrogatórios deformados pela brutalidade dos espancamentos para não entregar um ponto de encontro, uma informação, um documento. Para não delatar. Para não trair. Alguns simplesmente, não voltaram. Pagaram com a morte seu silêncio. A delação era a ignomínia. A condenação ao ostracismo, à exclusão de qualquer ambiente de convívio social. A morte civil.
Muito já se escreveu sobre a traição e os traidores. A literatura é abundante sobre esse gesto humano ignóbil, particularmente nas disputas pelo poder. Da bíblia aos gregos, de Dante a Shakespeare. Ainda que momentaneamente saudada por quem dela se beneficiou, a traição não perde seu caráter repulsivo, mesmo para eles. É indelével e permanecerá para sempre na face do traidor. Nas suas relações futuras, todos se lembrarão dele. E dela. E apontarão o estigma, quando for conveniente.
A História, tampouco, poupa os traidores. O nascimento das nações resultou, em geral, de partos sangrentos. Em que a forca e os fuzilamentos não foram economizados, de parte a parte. De quem oprimia e de quem contra a opressão se levantava. Países que conseguiram constituir-se como nações, com território, língua, cultura, com um destino comum construído pela vontade majoritária dos seus nacionais reservam aos traidores as penas mais severas.
De uma prática considerada repulsiva, a delação converteu-se, no Brasil do golpe, em moeda corrente, manipulada pelo Estado e pela mídia, diante do silêncio e, não se enganem, do desprezo da sociedade. Temos assistido com o estômago embrulhado a um espetáculo que a cada dia nos surpreende pela desfaçatez e o cinismo.
O Instituto da Delação Premiada é um singelo exercício institucional em que o traidor vende ao Judiciário o relato que melhor lhe convém sobre o crime que cometeu. E recebe, em troca, benefícios compatíveis com a avaliação que faz o Juiz do peso social e político da personalidade traída, com vista aos objetivos que ele, Juiz, deseja alcançar.
Não chega a ser surpreendente o rápido processo de desmoralização e degeneração de um mecanismo dessa natureza que se utiliza de um comércio entre o tratador e os répteis que se dispõem a mentir, a rastejar pela migalha de um favor, de um benefício pessoal, de uma redução de pena ao oferecer aos acusadores a cabeça de eventuais cúmplices, agora desafetos, não se escusando à esperteza de furtar a delação mais suculenta de algum ex-sócio.
Não cabe a comparação, por indevida, entre quem foi despedaçado física e moralmente pela Ditadura Militar e, eventualmente, fraquejou e esses escroques docemente constrangidos a delatar, a mentir, em troca da promessa de usufruir das relações e da fortuna que amealharam de forma criminosa.
Há fatos que lançam sobre o passado sua luz, elucidam circunstâncias e conferem a eles um novo significado. Nos últimos dias estivemos diante de fatos dessa natureza. Duas declarações emitidas por dois importantes personagens da República: a primeira, prestada diante do juiz da 13ª Vara de Curitiba. Perguntado pela defesa do Presidente Lula: “O Doutor Sérgio Mouro fez uma pergunta sobre se o senhor tratava de contribuições paralelas, não contabilizadas, caixa 2. O senhor fez uma afirmação aqui muito clara, eu nunca tratei. Então eu pergunto, o senhor hoje muda a versão por conta da sua delação premiada”? Resposta – “ Eu não tenho um acordo de delação premiada. – “O senhor tem uma negociação em curso”. –“Existem tratativas. Isso é um assunto que está a cargo dos meus advogados, eu confio no trabalho deles, são advogados de alta qualificação, com experiência no setor, e confio que eles estejam fazendo o melhor, dentro da lei, olhando maneiras de contribuir com a justiça, que é a minha vontade, e maneiras de obter benefícios, que também é a minha vontade”. Transferir aos advogados a responsabilidade pela decisão não anula o fato concreto de delatar. De negar a declaração anterior “Eu nunca tratei” para atender aos objetivos do interrogador. A que versão se deve dar crédito? Esse é o problema do delator. Será perseguido pela declaração anterior. Porque o compromisso não é com os fatos – já que não foi, afinal, oferecida nenhuma prova além de sua própria palavra –, o compromisso é com o “tratador”.
O corolário desta declaração que circulou há poucos dias na forma de carta-renúncia à condição de filiado ao Partido dos Trabalhadores, representa um esforço malsucedido de emprestar dignidade à desonra. O essencial, o que ficará, é o comércio que se operou entre o tratador e os répteis que a ele sucumbiram. Esse comércio enfeixa todo o significado simbólico do gesto do delator. Em alguns meses os beneficiados deitarão ao fogo a memória desses fatos e seus personagens e a converterão em cinzas. Eles perderão a serventia.
Para conforto de seus novos amigos ele, por sua parte, assegura que vai se empenhar a partir de agora, convertido à virtude, pensando mais em sua família do que no partido, em defender a verdade. Não escapará da armadilha que preparou para si mesmo: estará defendendo sua verdade particular ao lado da plutocracia que um dia combateu.
A segunda circulou pela imprensa convencional e pelas redes sociais: “Só luta por uma causa, quem tem valor. Os que brigam por interesse têm preço. Não que não me custe dor, sofrimento, medo e, às vezes pânico. Mas prefiro morrer que rastejar e perder a dignidade”. Dias depois dessa declaração o dirigente político que
a proferiu foi condenado a 30 anos de prisão. E afirmou estar feliz pela absolvição de um companheiro de processo.
A síntese exprime uma aguda consciência da natureza de classe do conflito em que se debate o país e a escolha de um homem maduro, provado nas múltiplas circunstâncias históricas que enfrentou. Soube conduzir e vencer batalhas. Sabe entender as derrotas que sofreu. Mas sabe também que o sonho que construímos ao longo da vida só nos abandona quando dormimos.
Definitivamente, o processo que envenena o Brasil e que resultou no golpe de 2016, cujo propósito principal é nos devolver à humilhante condição de neocolônia fornecedora de produtos primários, despe as disputas políticas das vestimentas hipócritas do discurso moral que dominou a cena pública do país nos últimos anos. São o que são: escolhas políticas.
Neste momento da história assistimos, com as variações determinadas pelas condicionantes econômicas, sociais e culturais de cada país, o capitalismo se despedir de sua mais vistosa invenção política: a Democracia Liberal. Ela deixou de ser funcional para a acumulação. As instâncias convencionais da ação política foram esvaziadas, os sindicatos, os partidos, os parlamentos. E substituídas pelos comitês executivos das grandes corporações. No caso brasileiro a hipertrofia dos órgãos de controle e a condição de poder tutelar sobre os demais poderes assumida pelo judiciário gerou as condições para um golpe de estado capaz de, em alguns meses, fazer da Carta de 88 uma Constituição bastarda. Liquidado o capítulo dos Direitos Sociais que justificava seu título de “Constituição Cidadã”.
As petroleiras, os bancos, o agronegócio, o monopólio da mídia, contam entre os 3% da sociedade que apoiam o governo ilegítimo de Michel Temer. E têm força suficiente para mantê-lo no poder até que cumpra o desmonte cabal do projeto democrático-popular representado por Lula e pelo Partido dos Trabalhadores. Os autores das declarações de que tratei aqui serão julgados, num futuro que espero seja breve, pela integridade com que se conduziram diante das escolhas políticas que fizeram.

*Pedro Tierra (Hamilton Pereira) é poeta. Ex-Presidente da Fundação Perseu Abramo.


"O sentimento despertado pela música instrumental é original, não imitado, ele é totalmente diferente do sentimento refletido, da empatia, mediante a qual o espectador, ouvinte ou leitor se coloca na posição daquele que sofre, está triste ou alegre etc. É a 'música mesma' que é alegre, serena ou melancólica, é ela que tem um 'temperamento próprio', que não imita o estado de alma específico de ninguém, mas é 'a angústia mesma feito coisa', como dirá Sartre muito tempo depois; é ela que absorve inteiramente e transforma a mente que lhe é receptiva, colocando-a no mesmo humor, no mesmo estado de espírito, no mesmo registro de sentimento e temperamento em que está composta."

(SUZUKI, Márcio. "O senso do belo e a máquina do mundo". In: A forma e o sentimento do mundo: jogo, humor e arte de viver na filosofia do século XVIII. São Paulo: Editora 34; FAPESP, 2014. p.285)
"Perder uma guerra, mesmo que seja uma batalha cultural, não faz bem ao organismo: eu era uma pessoa mais amável, antes de as nossas universidades se renderem a um suposto bem social e passarem a selecionar textos de leitura com base em origem racial, gênero, preferência sexual e filiações étnicas de Novos Autores, do passado e do presente, sem levar em conta o fato de eles saberem ou não escrever."
(BLOOM, Harold. "John Milton e o 'Paraíso perdido'". In: MILTON, John. Paraíso perdido. edição bilingue: tradução, posfácio e notas de Daniel Jonas; apresentação de Harold Bloom; ilustrações de Gustav Doré. São Paulo: Editora 34, 2015. p.10)


"Em pé, na frente da sala de aula, ensinando aos meus alunos da escola fundamental os fatos básicos da nossa língua, da vida, do mundo, descobri que, ao mesmo tempo, ensinava a mim mesmo tudo de novo -- filtrado através dos olhos e mentes dessas crianças. Realizada da maneira certa, era uma experiência restauradora. Até mesmo, profunda."

(MURAKAMI, Haruki. "Minha querida Sputnik". tradução Ana Luiza Dantas Borges. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. p.67)
"Numa palavra, a vida humana é mais governada pelo acaso do que pela razão, deve ser encarada mais como um enfadonho passa-tempo do que como uma ocupação séria, e é mais influenciada pelo temperamento de cada um do que por princípios de ordem geral."
(HUME, David. "O cético". In: Ensaios morais, políticos e literários. trad. João Paulo Gomes Monteiro e Armando Mora D'Oliveira. Editora Nova Cultural: São Paulo, 2004. p. 191)


"E vocês atiram porque são a Revolução. Mas a Revolução é alegria. E a alegria não gosta de ter órfãos pela casa. O homem bom faz boas obras. A Revolução é uma boa obra de homens bons. Mas homens bons não matam. Então, quer dizer que quem faz a Revolução são os homens maus."

(BÁBEL, Isaac. "O Exército de Cavalaria". tradução e apresentação Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. posfácio: Boris Schnaiderman e Otto Maria Carpeaux. São Paulo: Cosac Naify, 2006. p. 57.)
"Nove dias antes de sua morte, Emmanuel Kant recebeu a visita de seu médico. Velho, doente e quase cego, levantou-se da cadeira e ficou em pé, tremendo de fraqueza e murmurando palavras ininteligíveis. Finalmente, seu fiel acompanhante compreendeu que ele não se sentaria antes que sua visita o fizesse. Este assim fez e só então Kant deixou-se levar para sua cadeira e, depois de recobrar um pouco as forças disse: 'Das Gefül für Humanität, hat mich noch nicht verlassen'. Os dois homens comoveram-se até as lágrimas. Pois, embora a palavra 'Humanität' apresentasse, no século XVIII, um significado quase igual a polidez ou civilidade, tinha, para Kant, uma significação muito mais profunda, que as circunstâncias do momento serviram para enfatizar: a trágica e orgulhosa consciência no homem de princípios por ele mesmo aprovados e auto-impostos, contrastando com sua total sujeição à doença, à decadência, e a tudo o que implica o termo 'mortalidade'."

(PANOFSKY, Erwin. "Significado nas artes visuais". tr. Maria Clara F. Kneese e J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2014. p. 19-20)
"Como era terrível para ele quando surgia de repente em seu espírito a imagem viva e clara do destino humano e de seu significado, e quando entrevia num lampejo um paralelo entre aquele significado e sua própria vida, quando dentro de sua cabeça se derramavam, umas sobre as outras, várias questões vitais, e rodavam, em desordem, de modo atemorizante, como pássaros despertados por um raio repentino de sol, numa ruína adormecida."

(GONTCHARÓV, Ivan Aleksándrovitch. "Oblómov". tr. Rubens Figueiredo. São Paulo: Cosac Naify, 2012. p. 143.)
"Mas é sua pretensão à universalidade o que especifica, em todos os casos, o juízo de valor estético. Observou-o Kant e é, de fato, o ponto de partida de sua reflexão: quando emito determinado juízo, não posso deixar de reivindicar para ele a objetividade e deixar de pensar que deve ser por todos subscrito. Por certo, também posso pronunciar juízos subjetivos, em primeira pessoa, ao dizer, por exemplo: 'gosto desta obra' ou 'prefiro isto ou aquilo'; mas, nessas circunstâncias, tenho consciência de exprimir apenas meus gostos e, afinal, de julgar a partir de mim mesmo mais do que do objeto. Portanto, distingo claramente entre juízo objetivo e juízo subjetivo; e talvez seja necessário estar de má fé ou ser ingênuo por excesso de sutileza para sustentar um relativismo total e afirmar que todo juízo estético é irredutivelmente subjetivo."


(DUFRENNE, Mikel. "Estética e Filosofia". tr. Roberto Figurelli. São Paulo: Perspectiva, 2012. p. 36)

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Vaidade

 (de Florbela Espanca)

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reune num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá deste mundo...bela
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...E não sou nada!...



Pórtico



Aqui começa a nova caminhada.
Se a levar ao fim, darei louvores a Deus,
Como meu Pai, ao despegar
...Do dia ganho.
Não por haver chegado,
Mas ter acrescentado
Um palmo de ilusão ao meu tamanho.

de Miguel Torga


IV - HOMENAGEM A OLAVO BILAC




IV

Como a floresta secular, sombria,
Virgem do passo humano e do machado,
Onde apenas, horrendo, ecoa o brado
Do tigre, e cuja agreste ramaria

Não atravessa nunca a luz do dia,
Assim também, da luz do amor privado,
Tinhas o coração ermo e fechado,
Como a floresta secular, sombria...

Hoje, entre os ramos, a canção sonora
Soltam festivamente os passarinhos.
Tinge o cimo das árvores a aurora...

Palpitam flores, estremecem ninhos, . .
E o sol do amor, que não entrava outrora,
Entra dourando a areia dos caminhos.

Olavo Bilac

1

“Entra dourando a areia dos caminhos”
O sol se transformando em guia e fonte,
Reinando sobre a linha do horizonte
Guiando os tantos pássaros aos ninhos.
Forrando a terra em áurea maravilha
Azulejado céu se torna imenso,
E quando neste brilho paro e penso,
Minha alma em luzes fartas também trilha
Seguindo cada raio na manhã
Deveras tão fantástica que vejo,
Iridescentes lumes num lampejo,
E a vida recomeça o seu afã.
E tendo sob os olhos tal beleza,
Verseja dentro em mim a natureza.

2

“E o sol do amor, que não entrava outrora,”
Ao perceber distante dos meus olhos
Jardim que agora entranha-se em abrolhos
Enquanto esta aridez tudo devora.
Encontro sob os raios deste sol
Sobeja maravilha que, infinita
Deveras transformando uma desdita
Traçando em minha vida, este farol.
Percebo que se emana dentro da alma
Prismático e sem par, raro espetáculo,
Não tendo mais sequer qualquer obstáculo,
Imensa claridade já me acalma,
Excelso dia, eu sinto me tocando,
Num ar suave e manso, claro e brando...

3

“Palpitam flores, estremecem ninhos,”
Envoltos pela intensa claridade
Tornando bem mais bela a realidade,
Não tendo mais meus dias tão sozinhos,
Permito-me sonhar e em cada sonho
Deveras se pressente um Paraíso,
O passo destemido e mais preciso,
Num raro amanhecer que ora componho,
E vendo-te tão bela em luzes fartas,
Rondando a minha mente, fantasias,
E enquanto com prazeres tu me guias
As dores e os temores; já descartas.
Seguindo cada passo rumo à paz
Que amor, sem ter limite; quer e traz.

4

“Tinge o cimo das árvores a aurora’
Derrama sobre a Terra em áureos tons,
E os pássaros entoam vários “C
Enquanto a Natureza se decora.
Pudesse ter deveras a certeza
Do quanto se faz raro este momento,
Teria pelo menos um alento,
Gerando dentro em mim tal fortaleza
Que nada impediria o meu caminho
Aonde se pensara em dor e tédio,
O amor se demonstrando este remédio
Trazendo a paz aonde ora me aninho.
Seguindo cada passo desta luz,
O brilho em teu olhar se reproduz...

5

“Soltam festivamente os passarinhos”
Vagando por diversas direções,
Nos cantos mais fantásticos me expões
Belezas que se espalham nos caminhos,
E quando me percebo mais feliz
Vivendo desta forma, sem temores,
Sabendo em meu canteiro tantas flores
E nelas farto amor que me bendiz.
Tomado por carinhos, sigo em frente
Deixando no passado a dor imensa,
E quando tenho em ti a recompensa,
O mundo se transforma, num repente.
E sinto neste céu tal festival
De um canto mavioso, sem igual...

6

“Hoje, entre os ramos, a canção sonora”
Dos pássaros trazendo na alvorada
A imagem tão sobeja quão dourada
Nesta manhã divina que se aflora.
Mergulho em cada raio fulgurante
Que emana-se tomando todo o espaço
E quando neste sol divino eu traço
Porquanto em tal beleza se agigante
O sonho mais audaz e a divindade
Trazendo para tantos, luz e vida
A história noutras eras já perdida
Agora de esperança enfim se invade.
Tornando bem mais belo o meu jardim,
Derrama maravilhas sobre mim...

7

“Como a floresta secular, sombria”
A vida se mostrara em árdua cor,
E tendo tão somente o desamor,
A sorte a cada corte desafia,
E eu tento vislumbrar alguma sorte
Diversa da que tanto me maltrata,
A vida se por vezes é ingrata
Sem ter sequer quem mesmo nos conforte,
Percebo ainda ao longe num relance
O brilho deste sol que se aproxima
E nele com certeza nova estima
Tocando minha pele em belo alcance.
Lançando o meu olhar neste horizonte
Permito que este amor, novo, desponte...

8

“Tinhas o coração ermo e fechado”
Depois dos vendavais e tempestades,
A vida traz correntes, frias grades,
Porquanto ainda vivo o teu passado,
Mas quando nos meus braços te entregaste
Mudando a direção dos ventos, vi
Que toda esta pujança havia em ti
Gerando com a dor raro contraste,
Bebendo cada gota deste encanto,
Já não se vê mais dores no caminho,
E quando nos teus braços eu me aninho,
Um pássaro liberto, enfim, eu canto.
E sei que tu também segues tranqüila
Na glória que este amor, raro, destila...

9

“Assim também, da luz, o amor privado”
Jamais encontraria amanhecer
E tendo mais distante algum prazer
A dor já dominando rumo e Fado.
Pudesse ter nas mãos a minha sorte
Não haveria tanto sofrimento,
E quando nos teus braços eu me alento
Encontro quem deveras me conforte,
Trazendo lenitivo às tantas dores
Mudando a direção, em paz prossigo,
E tendo neste amor um raro abrigo,
Seguindo cada passo aonde fores,
As flores renascendo no canteiro,
Num sol sobejo e claro, verdadeiro...

10

“Não atravessa nunca a luz do dia,”
A sombra do que fora desamor
Ao mesmo tempo em ti percebo a cor
Que o coração deveras já recria
Matizes tão diversos da emoção
Alheias fantasias do passado,
Agora ao ver meu rumo ensolarado,
Jamais conhecerei a solidão.
Vestindo de ilusão meu peito eu sigo
Enfrentando as tempestas mais vorazes
E quanto mais amor, querida trazes
Maior a sensação de imenso abrigo.
Não deixe que este encanto finde, pois,
É dele ora o futuro de nós dois...

11

“Do tigre, e cuja agreste ramaria”
As garras com os ramos misturados
Caminhos que pensara abençoados
Transformam a beleza em agonia.
A fera se mostrando atocaiada
Floresta impenetrável, desamores,
Aonde se pensara colher flores,
A morte sendo assim anunciada.
Vencido pelo medo, nada tenho
Somente este vazio dentro da alma,
Nem mesmo uma alegria inda me acalma,
Pois sinto quão é frágil tal empenho.
Do tigre, da floresta, do terror,
O fim do que pensara eterno amor...

12

“Onde apenas, horrendo, ecoa o brado”
Da fera que prepara-se em espreita
A sorte malfadada não aceita
Destino pelos deuses já traçado.
O peso do viver se acumulando
Vergastas me cortando dia a dia,
Aonde se pensara em fantasia,
Em tempo mais suave, ameno e brando
Imenso temporal ora aproxima
E deixa em polvorosa a Natureza,
Lutando contra a intensa correnteza,
Sem ter sequer o sonho que redima,
Prepara-se o final da minha história
Deveras dolorida e merencória...

13

“Virgem do passo humano e do machado”
Florestas dentro da alma mais ferozes,
Jamais ouvindo enfim dos sonhos vozes,
Amor há tanto tempo abandonado.
Vivendo sem saber sequer ternura,
O corte se prepara a cada instante,
E o que pudera ser mais deslumbrante
Transforma qualquer brilho na loucura
Que doma e não permite a caminhada
Daquele que se fez um eremita,
A sorte se transforma na desdita,
Jamais reconhecendo uma alvorada,
A negritude imensa do arrebol,
Impede o brilho farto de algum sol.

14

“Como a floresta secular, sombria,”
Minha alma se perdendo em turvas águas
Trazendo tão somente frias mágoas
Do que vivera outrora em fantasia.
Não tendo com certeza a boa sorte
Que tanto desejara quem sonhava,
Apenas nos meus olhos, fogo e lava,
Seguindo cada passo sem suporte.
Pressinto assim o fim do sonho e então
Depois da tempestade sem bonança
Restando algum resquício de esperança,
Quem sabe novos dias me trarão
Após o sofrimento e o desprazer,
O sol num belo e claro amanhecer!